Faz muito tempo que não escrevia, e é que passei por um período afastado de tudo. Acho que é oportuno e uma ótima oportunidade para voltar a escrever sobre o que está acontecendo no meu país e, de modo geral, na América Latina. O povo, pessoas como você ou como eu, já está farto de tanta corrupção, desigualdade e injustiça. São nossos líderes que deveriam zelar pela equidade entre os habitantes de uma nação.
Na Colômbia, tem-se visto que a greve tem dado muito o que falar. Até o momento, já se completaram sete dias desde o início, e não há nenhum precedente. É a primeira vez na história deste país que se observam manifestações com essas características.

De modo geral, percebe-se que não estamos unidos; a polarização fica evidente no fato de existirem tantos partidos políticos; tantas ideologias e formas de pensar, e isso não é ruim. O ruim é que estamos acostumados a atacar uns aos outros: que os de aqui não se dão bem com os de lá, que os de lá são uns gordos, que aqueles são mamertos, fascistas!, guerrilheiros!!… Quase parece uma disputa para ver quem trata pior quem.
O problema está na política. Na mesma disputa que herdamos desde sempre entre a esquerda e a direita. Vou ser direto de uma vez com meu ponto de vista: podemos assumir uma posição política sem precisar atacar como cães raivosos quem representa nossa oposição; o eixo esquerda-direita já está muito distorcido e, atualmente, é apenas uma ferramenta usada por quem governa para nos manter divididos.
O que acontece é que não percebemos isso facilmente, mas, como já disse, herdamos a sensação de nos sentirmos obrigados a adotar uma posição política e, da mesma forma, a atacar quem estiver do outro lado do espectro. Mas por que isso tem que ser assim? Na prática e na vida real, existe mais de um eixo; há também o eixo cima-baixo, frente-trás e uma infinidade de eixos que influenciam nossa realidade. Presumir que existe apenas um único eixo (o de sempre) é limitar nossa capacidade de interpretar a realidade corretamente. É como olhar através de óculos que só permitem ver uma única cor; será possível ver todas as nuances ou tons dessa cor, mas, ao ignorar o resto, não será possível admirar o contraste que surge entre a combinação de todas as cores. Perder-se-á a capacidade de admirar a beleza e, mais importante ainda: perder-se-á a capacidade de interpretar criticamente a realidade.
E é claro que, do ponto de vista de cada um, todos têm razão. É impossível tentar interpretar a realidade que afeta a todos a partir de um único ponto de vista. Por isso, sinto que é necessário nos livrarmos desse modelo de fazer política.
Deixando de lado a questão da esquerda e da direita, voltarei ao fato de que falei inicialmente. Acontece que, no contexto da greve nacional, há muitas pessoas que acham que a greve não é legítima e, além disso, atacam e estigmatizam qualquer pessoa que seja a favor da greve. A questão não se resume apenas a isso: aqueles que apoiam a greve também se opõem àqueles que não se posicionam sobre o assunto. Uns contra os outros, que situação estranha…
O contexto é que o atual governo é abertamente de direita e aqueles que elegeram Iván Duque (atual presidente) no ano passado são os que, principalmente, não concordam com a greve nacional, e acho que, nesse ponto, já ficou claro o motivo de sua discordância.
Os principais motivos daqueles que convocaram a greve e a apoiam são os seguintes:
- O “paquetazo”: reforma trabalhista e previdenciária que afetaria principalmente as novas gerações.
- A educação: desde o ano passado, vem sendo exigido mais investimento na educação dos mais carentes (o governo tem sido muito negligente nesse aspecto).
- Assassinatos de indígenas, líderes sociais e ex-guerrilheiros desmobilizados. Basicamente, o retorno da violência e a sensação de insegurança.
- O descumprimento do acordo de paz: percebe-se pouca disposição por parte do governo em resguardar os acordos firmados com as extintas FARC, atualmente um partido político.
- O recente bombardeio e massacre de cerca de 18 menores de idade, apresentados como baixas de guerra (baixas válidas no contexto de uma guerra, segundo o Estado).
- Privatização: há várias empresas que atualmente pertencem ao Estado e que pretendem ser transformadas em empresas privadas.
Independentemente de você ser ou não a favor da greve, você não acha que um governo deveria garantir os pontos acima sem que se chegue a uma situação de greve? Pois acontece que o descontentamento, em resumo, se deve ao fato de que este governo não governa para todos, e sim apenas para alguns. Na verdade, ele governa apenas para aqueles que representam produtividade para a nação e, caso contrário, é isso que se percebe.
Os únicos beneficiados pelas políticas atuais do governo são a mesma classe opulenta de sempre. Aquela classe que nos mantém mergulhados na desigualdade. Não digo isso sem fundamento: o PIB per capita até o momento é de 5.624 €, aproximadamente 21.745.814 pesos (fonte: https://datosmacro.expansion.com/pib/colombia), valor que não corresponde à realidade, pois menos de 1% da população total possui essa renda ou mais como renda.
O desemprego atual não é das pessoas de esquerda. É o resultado de pessoas cansadas de trabalhar a vida inteira por um salário miserável que não dá conta das despesas, pois tudo está muito caro. Quem tem vontade real de promover uma mudança é eliminado, e quem quer estudar precisa conseguir mais dinheiro do que o que aspira ganhar para pagar pela educação ou se matar de trabalhar e estudar ao mesmo tempo. Somado a isso: a corrupção. São nossos líderes políticos que nos mantêm nessa situação. Eles não fazem nada nem deixam que se faça.
O descontentamento já é mais do que evidente e não sei o que precisaria acontecer para que medidas reais fossem tomadas para conter essa situação. É preciso agir; nós, que temos possibilidades de progredir, temos a responsabilidade de promover uma mudança para aqueles que têm menos.